Slash - Pepsi On Stage, Porto Alegre - 09/11/2012

por Carol Flores

É difícil vermos a atenção dos fãs num show de rock voltada para alguém que não seja o vocalista da banda. Consequência direta desta situação acaba sendo a inexistência de um grupo, ou sua inevitável decadência, para alguns fãs quando na falta daquele que deu voz às composições que fizeram milhares de pessoas afirmarem: eu sou fã desse cara e/ou dessa banda! Sábio mesmo é quem disse que para toda regra há uma exceção e, neste caso, ela tem até nome: Saul Hudson, popularmente conhecido pelo apelido Slash, mantém uma base enorme de seguidores sendo “apenas” um guitarrista (enquanto sua antiga banda, que o levantou ao status de instrumentista mundialmente famoso, continua com seu vocalista original, mas nem de longe tem o mesmo brilho da sua era de ouro). Acompanhado por um time de peso, Slash veio ao Brasil para divulgar seu mais recente trabalho: Apocalyptic Love (2012). Porto Alegre o recebeu no último dia 09 num dos melhores shows realizados este ano na capital gaúcha.

Desde cedo era notável, visto a movimentação nos arredores do Pepsi On Stage, que a esperada noite seria especial. A fila para a entrada formou-se cedo e, com o passar do dia, até mesmo o trânsito na região já indicava que a lotação seria máxima. Dos últimos shows de rock que aconteceram no Pepsi On Stage, talvez somente o do Megadeth em 2010 estivesse tão cheio como o que estava prestes a começar. O único problema que incomodava os presentes era o calor extenuante e que não era ajudado de forma alguma pelo sistema de ventilação do Pepsi On Stage. Após dois shows de abertura, que infelizmente esta que vos fala não pode conferir por estar presa no trânsito, e alguma assistência dada aos que não agüentaram o calor e passaram mal na pista VIP lotada, Slash e sua banda sobem ao palco.


Talvez soe meio injusto qualificar Myles Kennedy (vocal), Frank Sidoris (guitarra), Todd Kerns (baixo) e Brent Fitz (bateria) como “a banda do Slash”. É claro, por tamanha qualidade que juntos demonstram ter, que estes músicos foram escolhidos a dedo para contribuir ao máximo com as composições do guitarrista. E o talento de todos é tanto que, além da contribuição, eles conseguem chamar um pouco da atenção dos fieis admiradores do Slash para si próprios, sem ofuscar o mesmo.  O baixista Todd, por exemplo, encarregou-se de substituir o vocal que na gravação original foi executado por Lemmy Kilmister (Motorhead) em “Doctor Alibi” (Slash – 2010) além também de dar um toque meio punk para “You’re Crazy” do primeiro álbum da carreira do Guns N' Roses (Appetite for Destruction – 1987). Sem fazer feio, Todd teve seu momento de destaque e manteve os presentes animados na ausência do excelente vocalista Myles Kennedy.

Dono de uma voz ímpar na cena rock, Myles foi a escolha certeira de Slash para tomar conta dos vocais de seu projeto solo. Depois de um primeiro álbum com diversas participações especiais no microfone, Slash confiou em Myles para dar forma a uma voz única no seu segundo álbum. O também vocalista da ótima banda Alter Bridge realiza um passeio ao ser versátil o suficiente para cantar desde os clássicos do Guns N' Roses até as mais recentes do Apocalyptic Love: Sweet Child O' Mine e, ainda mais, Paradise City enlouqueceram os fãs com Kennedy dando um banho de técnica  vocal e não deixando a desejar em nada em relação ao vocalista Axl Rose. Ainda vale destacar momentos como em “Halo” e “Anastasia” que, mesmo ao vivo, pareciam que estavam sendo executadas diretamente do álbum devido à fidelidade de Myles em relação à gravação.  Qualquer um pode jurar que canta alguma coisa, mas são poucos que conseguem se preocupar com sua imagem e carisma no palco sem se descuidar da qualidade de seu vocal. Myles Kennedy aqui também se mostra como uma exceção à regra.


É óbvio que a maioria dos olhares estavam fixos em Slash, não “apenas um guitarrista” mas sim um monstro que faz parecer ser tão simples tocar uma Les Paul tamanha a facilidade que ele tem ao presentear o público com seus conhecidos riffs. Porém não é só de técnica que vive Slash: o cara tem muito mais felling na guitarra do que meros riffs/solos enormes que desafiam os iniciantes a tentar reproduzi-los. E é justamente por isso que hoje o ex-guitarrista do Guns N' Roses tem uma carreira solo de sucesso que promete muito mais nos próximos trabalhos, podendo tocar algumas músicas de sua antiga banda enquanto promove seu ótimo trabalho atual. Ter visto Slash tocar “Ghost”, “Starlight”, a divertida “Slither” do Velvet Revolver, enfim, todo repertório da noite, foi um privilégio. O fato do guitarrista deixar certo espaço para seus companheiros de banda não querendo, aparentemente, ser uma estrela solitária é de fazer nossa admiração por ele aumentar ainda mais. Também era notável o respeito de Myles, Todd e Frank quando era hora de algum solo ou momento de destaque de Slash: todos ficavam próximos à bateria no fundo do palco e deixavam o guitarrista sozinho com o público. O respeito é mútuo e isso, vindo de alguém que teria todos os motivos para se colocar num altar, é de muito valor.

Porto Alegre preparou uma enorme recepção para Slash lotando o Pepsi On Stage e recebendo de volta um espetáculo digno de vários elogios: a extrema pontualidade de toda programação da noite (veio do lado britânico do Slash não?), a organização da produção da Free Pass e, por fim, o próprio show. Nos poucos momentos em que o guitarrista falou com o público deixou transparecer o quanto estava satisfeito. E motivos não faltam: carreira solo de sucesso mantendo a originalidade de suas composições com uma banda de suporte de qualidade e não apenas vivendo do passando mas sim o revisitando. Peço desculpas antecipadamente aos fãs do Axl, mas tenho que falar que Slash conseguiu o que aquele ainda nem ao menos tentou: superou o Guns N' Roses e seguiu em frente, like a boss.


Setlist


Halo
Nightrain
Ghost
Standing in the Sun
Back From Cali
Been There Lately
Civil War
Rocket Queen
Crazy Life
Not for Me
Doctor Alibi
You're Crazy
Hard & Fast
Guitar Solo / Godfather Theme
Anastasia
You're a Lie
Sweet Child O' Mine
Slither
Encore:
Starlight
Paradise City

Agradecimentos a Heloisa Vidal e a Free Pass produtora.

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